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O Fim

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Juntar numa só imagem a robustez do homem na fotografia e a ruína no sofá era e não era uma impossibilidade. Usar toda a minha força mental para unir os dois pais e transformá-los numa única pessoa foi uma tarefa insana, quase diabólica. E, no entanto, de repente senti (ou me obriguei) que eu era capaz de lembrar perfeitamente (ou de me fazer pensar que lembrava) o momento exato em que aquela foto tinha sido tirada, mais de meio século atrás. Fui até capaz de acreditar (ou de me fazer acreditar) que nossas vidas só aparentemente haviam escoado ao longo do tempo, que tudo estava de fato acontecendo simultaneamente. Philip Roth, Patrimônio – uma história verídica   Meu pai morreu no último dia 3 de junho. Eu não o vi nesse dia, estava a 10 mil km de distância. Estive fora do país nos últimos meses e não assisti a seu rápido declínio físico. Meu pai, que era também Flavio, sofria há dez anos do Mal de Alzheimer, essa doença terrível que destrói as lembranças de alguém bem ...

Desejo de compreensão

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(Publicado no caderno Cultura do jornal Zero Hora, Porto Alegre, em 04/2/2006)  A polêmica envolvendo o filme Munique , de Steven Spielberg, renova os termos de uma discussão ocorrida quando do lançamento de outro filme do mesmo diretor, A lista de Schindler , em 1993. A principal crítica que lhe é formulada diz respeito ao caráter tolerante, benevolente talvez, com que o cineasta teria tratado os militantes extremistas palestinos – terroristas ou combatentes, a escolha dos termos não é um elemento menor neste debate – envolvidos no ataque e assassinato de atletas da delegação israelense nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. O filme se ocupa da análise de um território que não nos é habitual, interstício entre os domínios da lei e da política, um não-lugar onde não vigora direito ou diplomacia, mas ódio, violência auto-justificada e cínico pragmatismo. Lá onde há enfrentamentos que não podem ser assumidos pelos Estados, por impossibilidade ou por interesse, se desenrola um...

Vargas, Perón e os técnicos

Trecho de Celso FURTADO, A Fantasia Organizada, Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1985, Capítulo VIII, "Golias e David", p.121. A entrevista [de Raúl Prebisch e Celso Furtado com Vargas] foi no Palácio do Catete, antiga sede do Governo. Prebisch, como muitos argentinos, tinha uma grande admiração por Vargas. Ele o via como o dirigente que conduzira o Brasil pelo caminho da industrialização, que transformara um país de grande atraso relativo em uma nação de vanguarda na região. Como a maioria dos observadores estrangeiros, não se detinha nos aspectos negativos. Era uma época de ditaduras, havia que se escolher entre tiranos e déspotas esclarecidos... Lamentava que Perón não tivesse as mesmas virtudes de Vargas. Disse-me certa vez que se houvesse podido influenciar Perón no começo, incutindo-lhe uma visão clara dos verdadeiros problemas econômicos com que se defrontava a Argentina, a História de seu país podia haver tomado outro rumo. Ele tentara esse contato com Perón, mas c...

Weber e a burocracia chinesa.

Trecho traduzido de: KRAUS, Richard Kraus, “The Chinese State ad Its Bureaucrats”. In NEE, Victor & MOZINGO, David (org) State and Society in Contemporary China . Ithaca e Lobdres: Cornell University Press, 1983.   "É fácil descartar como um jogo de salão a comparação entre os elementos oriundos da sociedade chinesa imperial e da contemporânea. Mas após refletir sobre a analogia entre marxismo e confucionismo, e argumentado contra a noção superficial de que nada mudara na China, Joseph Levenson afirmou: “Ainda, a aparência de sobrevivências não é, de forma alguma, uma ilusão de ótica. Muitos tijolos da antiga estrutura ainda estão por aí – mas não a estrutura. Fragmentos podem sobreviver por que descobriram um novo apelo, não por que carreguem (mais do que os fragmentos esquecidos) a essência de uma tradição invencível [1] . Entre os fragmentos da velha estrutura que têm sido, na nova, assiduamente cultivados, há uma sensibilidade organizacional que foi há muito anali...

Compiègne

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(Publicado no caderno Cultura do jornal Zero Hora, Porto Alegre, 15/11/2008) Assistia à cobertura ao vivo do canal BBC World das eleições norte-americanas, na qual se debatia a iminente escolha de Barack Obama como novo presidente. Na bancada de jornalistas e comentaristas convidados, ninguém menos que o genial ensaísta e polemista inglês Christopher Hitchens. Na lapela de cada participante uma poppy , a flor da papoula que os britânicos costumam portar nesta época do ano para comemorar (no sentido de lembrar juntos) a semana que se encerra no próximo dia 11 de novembro, data do armistício da I Guerra, em 1918. As poppies ficaram populares porque  se as associava às trincheiras e, por conseguinte, às centenas de milhares de vítimas da guerra. Na violência dos combates, as sementes da flor germinavam com facilidade nas crateras abertas pelas explosões, pintando de vermelho vivo os campos já ensangüentados de Flandres. Pois não pude deixar de pensar em Hitchens, homem de opiniõ...

A política regional como laboratório da Era Vargas

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(Publicado no caderno Cultura do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 28/8/2004) Passados 50 anos do suicídio que pôs fim à trajetória da mais expressiva liderança política da história contemporânea brasileira, o mês de agosto tem sido generoso na evocação da memória de Getúlio Dornelles Vargas. Vários eventos nas duas últimas semanas dissecaram a anatomia política e intelectual daquele que, tendo sido deputado na Assembléia dos Representantes, deputado federal, ministro de Estado, presidente do Estado do Rio Grande do Sul, chefe do governo provisório, presidente constitucional, ditador em 1937, senador e, por fim, no último e derradeiro mandato de sua vida, presidente eleito em 1950, permanece, meio século depois de sua morte, o personagem central do processo de modernização da vida brasileira no século 20. A vitalidade da programação alusiva aos 50 anos do suicídio revela o grande interesse que historiadores e outros pesquisadores seguem atribuindo à chamada Era Vargas, em ge...

Memórias de 64: esquecimento e oportunismo

(Publicado no caderno Cultura do jornal Zero Hora, Porto Alegre, em 31/7/2004) A onda de debates suscitada pela passagem dos 40 anos do golpe de 1964 teve mais um episódio na semana passada, em Pelotas, por ocasião do encontro dos pesquisadores gaúchos filiados à Associação Nacional de História. Celso Castro, da Fundação Getúlio Vargas, Marcelo Ridenti, da Unicamp, e Beatriz Loner, da UFPel, levantaram questões inquietantes, relacionadas à memória dos acontecimentos de 64 e do Regime que se seguiu, bem como a seus desdobramentos e às formas de apropriação na opinião pública atual. Embora o debate de Pelotas tenha girado em torno dos riscos da instrumentalização política, no campo da opinião, dos resultados do debate acadêmico, particularmente no caso do estudo da ação das esquerdas armadas, ele não deixou de tocar em outro tema que julgo central para a pesquisa sobre 1964: o do processo de invisibilização das redes civis de apoio ao golpe e ao Regime. De forma geral, a opinião ...